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/ GRAMPOS

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05.08.2019 | 17h02
“Policiais revelaram modus operandi e desmascararam esquema”
Presidente da OAB Leonardo Campos diz que a grampolândia foi maior escândalo da história recente de MT
Alair Ribeiro/MidiaJur
Leonardo Campos, presidente da OAB/MT
CÍNTIA BORGES
DA REDAÇÃO

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso, Leonardo Campos, avaliou que a chamada "grampolândia pantaneira" foi o maior escândalo da história recente de Mato Grosso.

Em entrevista ao MidiaNews, ele reafirmou que a OAB é instituição legítima para acompanhar as investigações resultantes das notícias-crime formuladas pela entidade classista no Tribunal de Justiça em relação ao caso, apesar da resistência do Ministério Público Estadual (MPE).

“A Ordem enquanto representante da sociedade, nesse que é o maior escândalo recente de Mato Grosso, não aceita e não aceitará uma investigação intramuros, uma investigação a porta fechadas. Alguém precisa fiscalizar o fiscal, alguém precisa acompanhar o que o fiscal faz”, disse.

"Queremos trazer legitimidade e transparência às investigações. Não aceitaremos investigações a portas fechadas”.

Fatos novos a respeito do esquema de interceptações telefônicas ilegais vieram à tona no reinterrogatório dos coronéis Zaqueu Barbosa e Evandro Lesco e do cabo da PM Gerson Correa Júnior, nos dias 16 e 17 de julho. Entre eles a suspeita de participação de promotores no esquema, além da exposição de como funcionava a engrenagem dos grampos no Estado.

A Ordem enquanto representante da sociedade, nesse que é o maior escândalo recente de Mato Grosso, não aceita e não aceitará uma investigação intramuros, uma investigação a porta fechadas. Alguém precisa fiscalizar o fiscal, alguém precisa acompanhar o que o fiscal faz

“Eles desmascararam como era o funcionamento dessa estrutura que utilizava, em tese, a barriga de aluguel. Eles deram todo o modus operandi e também nominaram algumas operações que poderiam ter ocorrido barriga de aluguel”, disse. 

Ainda na entrevisa, dada nesta semana na sede da OAB, Campos falou sobre projetos de alteração da legislação penal, da falta de segurança das comunicações das autoridades e da relação conflituosa entre a Ordem e o presidente Jair Bolsonaro.

Confira entrevista na íntegra:

MidiaNews -  O senhor poderia dar um panorama de como estão as investigações resultantes da denúncia da OAB no caso relativo aos grampos?

Leonardo Campos – Quando tomou conhecimento através da mídia nacional, de que poderia ter existido em Mato Grosso um esquema clandestino de interceptações telefônicas, a Ordem se reuniu e efetuou as denúncias junto ao Tribunal de Justiça, o que chamamos de notícia-crime. 

Essas denúncias, conforme os elementos que foram nos chegando após as investigações e após as manifestações da Ordem... Teve a matéria [na imprensa], a Ordem se manifestou publicamente dizendo que tomaria as providências. Diante dessa manifestação pública da Ordem, vários fatos, documentos e elementos começaram a chegar até a OAB.

Ela se divide em três pilares basicamente. Primeiro: o escritório clandestino de escuta telefônica, a arapongagem, em tese. Dois: a barriga de aluguel, que é quando se insere número de telefones de pessoas sem envolvimento em crime e estes são listados como se pertencendo a alvos de investigações policiais. E o terceiro pilar é a quebra de sigilo fiscal junto à Secretária de Fazenda, diante da movimentação financeira de contribuintes, autoridades etc.

Dentro desse processo da Sefaz também tem, sob nossa ótica, o ferimento do principio da obrigatoriedade, que aduz que: tendo a autoridade conhecimento da prática de um crime, ela é obrigada a oferecer respectiva denúncia. E nós tivemos várias pessoas que confessaram crime, fizeram delação e saíram de criminosos para vítimas. Então nós também pedimos a análise desse aspecto. 

MidiaNews – E a questão dos membros do Ministério Público que supostamente teriam realizado escutas clandestinas?

Leonardo Campos – Também está sendo investigado dentro da notícia-crime sobre barriga de aluguel. Ela se iniciou em uma operação de Cáceres, depois veio a Operação Ouro de Tolo e agora começam a revelar outras operações em que em tese poderia ter ocorrido barriga de aluguel.

MidiaNews – Os depoimentos dos coronéis Zaqueu Barbosa e Evandro Lesco e do cabo Gerson Correa trouxeram fatos novos?

Leonardo Campos – Trouxeram sim fatos novos e relevantes. Mas mais importante que isso, eles desmascararam como era o funcionamento dessa estrutura que utilizava, em tese, a barriga de aluguel. Desconfiava-se, as notícias-crime estavam investigando. Iriam chegar a essas conclusões eu quero crer. Porém isso foi antecipado ou esclarecido – ainda que não naquele processo, porque estamos falando da notícia-crime da OAB e eles prestaram depoimento na ação penal militar. Deu todo o modus operandi e também nominou algumas operações em que poderiam ter ocorrido barriga de aluguel. 

MidiaNews – Mas os depoimentos da Justiça Militar serão remetidos para as ações que correm no Tribunal de Justiça?

Trouxeram sim fatos novos e relevantes. Mas mais importante que isso, eles desmascararam como era o funcionamento dessa estrutura que utilizava, em tese, a barriga de aluguel

Leonardo Campos – Com certeza! Eu não posso dizer qual é o caminho, mas em um primeiro momento nós vamos requerer cópias de todas essas oitivas, inclusive de eventuais documentos que serão juntados por eles nos autos, e fazer uma análise. E a partir dessa análise verificar qual caminho jurídico a ser tomado. 

MidiaNews – Com esses documentos em mãos, a OAB pode apresentar uma nova notícia-crime?

Leonardo Campos – Se tiver fatos novos sim, se versarem sobre os mesmos fatos da notícia-crime mãe que investiga a barriga de aluguel, nós apenas podemos aditar essa denúncia e juntar a esse processo. Mas isso, como disse, só deve ser feito após analise de conteúdo jurídico dessas informações, confrontá-lo com as provas fáticas e tomar as providências. 

MidiaNews – Quando o senhor fala que foram esclarecedores os depoimentos, também é no sentido de mostrar a participação de promotores no esquema?

Leonardo Campos – Não diria promotores, porque isso virá a ser objeto da notícia-crime que será apurado. Eu diria o modus operandi de como funcionava a rotina para a inserção de ramais telefônicos que não faziam parte daquela operação. De tudo, desde os relatórios até a eventual participação dos promotores e até chegar a autorização do Poder Judiciário. Esses fatos esclareceram toda a rotina do funcionamento, em tese, da barriga de aluguel. 

MidiaNews – Como o senhor enxerga essa resistência do Ministério Público Estadual em ter a OAB como parte nos casos que correm no Tribunal de Justiça?

Leonardo Campos – Eu quero crer que isso esteja ultrapassado para o MPE, porque o Tribunal de Justiça já disse por mais de uma vez. Primeiro o Tribunal Pleno e agora o desembargador Orlando Perri, que afastou a possibilidade da Ordem não acompanhar o caso, reconhecendo a legitimidade e a legalidade do acompanhamento, uma vez que ela é a entidade noticiante e obviamente representa a sociedade, portanto legitimada pela representação social. Ela tem direito de acompanhar essas investigações. 

E também um fato público e notório, agora revelado pelos militares, de que houve advogados interceptados de forma ilegal em pleno exercício profissional. Por isso atrai toda a competência da OAB. 

MidiaNews – Mas qual a sua visão sobre a resistência do MPE em aceitar a Ordem como parte?

Leonardo Campos – Equivocada.

MidiaNews – Houve até uma argumentação de que a OAB teria agido com interesse...  

Leonardo Campos – Com interesse, sim. Com muito interesse. Nós temos interesse na defesa da sociedade, porque somos representantes dela. E na defesa da advocacia, que teve esse crime como o mais grave escândalo que eu reputo ao Estado de Mato Grosso nos últimos tempos. 

Um crime de lesa-sociedade, um crime que ofende a democracia e o estado democrático de direito. Portanto a OAB tem muito interesse em acompanhar essas investigações e não vai abrir mão de acompanhá-las como legitimada judicialmente, juridicamente, pela Constituição Federal na representação da sociedade através do artigo 44 da lei 8.906. 

MidiaNews – Em uma entrevista recente, o procurador-geral de Justiça José Antônio Borges disse que grampo é cria do ex-secretário da Casa Civil Paulo Taques..

Leonardo Campos – As investigações vão apontar. Como eu disse, a investigação tem vários pilares. Na barriga de aluguel, os militares publicizaram como era a engrenagem do funcionamento e aí apontaram, no mínimo, que os promotores tinham conhecimento, se não foram coniventes ou se não foram os autores. Isso quem vai dizer é a operação. Então, não estou a afirmar que promotores foram autores de barriga de aluguel, os depoimentos dos militares trazem revelações importantes nesse sentido. 

Outro aspecto é o escritório clandestino de "arapongagem" montado através da alta cúpula dos oficiais da PM, vinculado ao Poder Executivo, que aí também está sendo apurado tanto no inquérito policial militar, na ação penal militar, como em outra notícia-crime, que inclusive já foram até convocados delegados para auxiliar nessas investigações. Nós precisamos chegar a essas conclusões, por isso a ordem tem acompanhado muito de perto. 

Precisamos saber - e isso já começa a ser desvendado com esses depoimentos: qual era a estrutura pessoal de ordem e comando da organização criminosa? Qual era o modus operandi? Qual a finalidade? E o mais importante: quem teve o seu sigilo telefônico violado de forma clandestina para que as pessoas possam exercer o seu efetivo direito à reparação.

MidiaNews – O senhor acredita que possa haver um protecionismo por parte do Ministério Publico em relação a seus membros?

Leonardo Campos – É por isso que a Ordem precisa acompanhar essas investigações. E repito: quando falo que precisa, digo que já está superada a parte legal, porque isso já foi decidido. A Ordem, enquanto representante da sociedade, nesse que é o maior escândalo recente de Mato Grosso, não aceita e não aceitará uma investigação intramuros, uma investigação a porta fechadas.

Alguém precisa fiscalizar o fiscal, alguém precisa acompanhar o que o fiscal faz. Na República não há poder absoluto. Todos nós somos subordinados ao comando que disciplina a Constituição Federal e as leis que disciplinam o País. Então, queremos trazer legitimidade e transparência às investigações e não aceitaremos investigações a portas fechadas.

MidiaNews – O MPE abriu procedimentos internos depois dos depoimentos dos militares. A OAB pode de alguma forma acompanhá-los?

Leonardo Campos – Esses são procedimentos internos. Ao que foi decidido, a Ordem pode acompanhar os procedimentos em que ela foi denunciante. Os procedimentos internos do MPE apurarão e apresentarão o resultado à sociedade. Concomitantemente, na notícia-crime mãe, que engloba tanto o escritório clandestino de arapongagem, como os de barriga de aluguel, também terá que ser trazido o resultado. 

Não tem o que pensar: criminoso. Que não deve ser possibilitado a ele o convívio social dentro do estado de direito

MidiaNews – O procurador-geral de Justiça chegou a alegar que os novos fatos levantados pelo militares foram revelados no “desespero” devido a possível condenação no âmbito militar, que pode lhes custar a aposentadoria. Como o senhor enxerga essa declaração?

Leonardo Campos – Esse assunto para nós está ultrapassado. E não gostaria de ficar revivendo o assunto que nós já nos manifestamos sobre. Porque posteriormente a todas as polêmicas que cercaram o caso, o procurador-geral de Justiça já tomou providências, já instaurou procedimentos, já saiu da letargia que passava para a sociedade antes. 

Nós já fomos devidamente informados e participamos de oitivas que foram feitas no Naco. Então, eu gostaria de dar esse assunto por superado, página virada, e quero crer que o Ministério Público entendeu que a OAB tem único e exclusivo interesse de representar a sociedade e cobrar providência em nome da sociedade deste que é o maior escândalo da história recente de Mato Grosso. 

MidiaNews – Como o senhor classifica uma autoridade que usa o aparato estatal para “bisbilhotar” a vida dos outros?

Leonardo Campos – Não tem o que pensar: criminoso. Que não deve ser possibilitado a ele o convívio social dentro do estado de direito.

MidiaNews – Como o senhor analisa essa “onda” de grampeamentos e hackeamentos de autoridades no Brasil? 

Leonardo Campos – Grampolândia é uma coisa, hackeamento é outra, inclusive em ordens diferentes. E a OAB já teve oportunidade de se manifestar. Tanto nos grampos como autora das denúncias, e que está acompanhando essas denúncias, e não aceita que esses processos não tenham uma resposta célere para sociedade.

Quanto ao hackeamento de autoridades brasileiras, a Ordem não admite e vê com preocupação a fragilidade do sistema de segurança das nossas autoridades. Isso é um ataque ao próprio Estado brasileiro, e a Ordem já requereu a necessidade de se instaurar uma ampla auditoria. Vamos chamar de um procedimento operacional padrão, das condutas dessas autoridades para que elas sejam blindadas contra esse tipo de ataque. Nós já tivemos oportunidade de externar isso: a preocupação com a fragilidade do sistema de segurança, não de segurança física, mas de segurança estatal, do sigilo das nossas autoridades.

MidiaNews – E como o senhor analisa o vazamento das conversas do ministro da Justiça e ex-juiz Sérgio Moro com o procurador da República Deltan Dallagnol?

Leonardo Campos – Com a mesma preocupação. São pontos distintos que precisam ser apurados. Primeiro: o hackeamento. É preciso apurar as circunstâncias e a segurança dessas comunicações. Segundo, se comprovada a veracidade, revela no mínimo uma promiscuidade de uma relação da acusação com o julgador, inadmissível dentro do estado de direito. E principalmente do devido processo legal, em que na esfera criminal deve-se ter a paridade de armas: o juiz julga, a acusação acusa e os advogados - com os mesmos elementos e instrumentos - fazem a defesa. 

Portanto, a partir do momento em que o juiz orienta a acusação de como proceder, inclusive na parte midiática, tem comprometido o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, o que para nós é causa de nulidade absoluta.

MidiaNews – Inclusive, se for prova ilícita?

Leonardo Campos – São duas coisas diferentes. O hackeamento precisa ser apurado. A legitimidade e a legalidade dessas provas obviamente, em cada processo, devem ser anulados ou aplicados. Se aquela prova serviu para contaminar e influnciar o julgador e ela é ilícita, por óbvio que ela não pode ser utilizada. Se aquela prova não influenciou, o processo não está contaminado. Mas isso é uma análise minuciosa, caso a caso. 

MidiaNews – Advogados ingressaram com pedidos de anulação de algumas operações que, segundo o cabo Gerson, tiveram barriga de aluguel. O senhor acredita que pode haver anulação dessas ações?

Leonardo Campos – Vai ter que fazer uma análise até em nome da segurança jurídica para cada caso, para o caso concreto. Vai ter que aplicar a situação colocada nos depoimentos no processo. E ali, naquele processo, fazer uma análise: acusação, defesa e o julgador....  Se aquele elemento de prova, que possivelmente pode ou não estar contaminado, influenciou na decisão daquele processo. Aí você precisa retroceder um degrau: primeiro saber se o elemento de prova está ou não contaminado. Estando contaminado, qual a influência dele no resultado da condenação, sentença, decisão? Se a prova contaminada influenciou, é nulo. Se não influenciou, não é nulo. 

Nos causa estranheza e nos parece contraditório. Eu vou até o Ministério Público, ofereço para fazer uma colaboração premiada, o MPE recusa. Eu venho em outro juízo, revelo esses fatos - que teriam sido revelados no Ministério Público e não teriam sido aceitos -, e logo na sequência o próprio procurador-geral determina a instauração do processo para investigar esses mesmos fatos

Até porque nós temos outros meios de prova. Por exemplo, a delação. A delação, ao que parece, não tem nada a ver com o uso de barriga de aluguel. Então vai se somando o conjunto probatório e o julgador faz o peso e aplica a sua decisão.

MidiaNews – O senhor falou de paridade das armas na Justiça. A OAB já identificou casos em Mato Grosso onde não existe essa paridade?

Leonardo Campos – No nível dessa promiscuidade entre magistrado e procurador da república, não. Agora, sobre excessos que nós tivemos aqui a Ordem levantou a sua voz imediatamente, tão logo teve uma reclamação de advogado. No caso especifico, um ou outro, preciso rever nossos arquivos. Mas formalizados para Ordem, eu quero crer que não é nada que fugisse da normalidade. 

Toda vez que um magistrado ou um promotor extrapolou suas atribuições a Ordem levantou sua voz. Como por exemplo, quando se falou para que se investigasse a origem dos honorários da advocacia. Obviamente que a Ordem levantou a sua voz de forma muito firme, dizendo que não aceitava esse tipo de patrulhamento. Se fosse assim, teria que investigar o jornalista, o médico, o dentista, inclusive os funcionários públicos que são pagos com dinheiro dos impostos dessas pessoas que são investigadas.

Quando houve prisões de advogados pelo exercício profissional, a Ordem também se levantou de forma muito dura. 

MidiaNews – O senhor foi o primeiro a citar a negativa do Ministério Público Estadual em aceitar a delação dos militares. Acha que ali houve corporativismo? Como o senhor interpretou aquela situação?

Leonardo Campos – Na verdade eu questionei se eram verídicas as informações, que depois se tornaram públicas, de que os militares tentaram efetuar a colaboração premiada e foi negada, sob o argumento de não terem revelado fatos novos. 

Aí o coordenador do Naco [procurador Domingos Sávio de Barros Arruda] teve que vir a público e dizer que esses fatos eram verídicos, porque esses fatos não eram conhecidos pela sociedade. Eu reclamei dessa ausência de transparência.

Obviamente, após as revelações, nos causa estranheza e nos parece contraditório. Eu vou até o Ministério Público, ofereço para fazer uma colaboração premiada, o MPE recusa. Eu venho em outro juízo, revelo esses fatos - que teriam sido revelados no Ministério Público e não teriam sido aceitos -, e logo na sequência o próprio procurador-geral determina a instauração do processo para investigar esses mesmos fatos. 

Nos parece contraditório sobre esse aspecto a posição do Ministério Público. Não de instaurar o processo, mas de ter recusado a delação premiada.

MidiaNews - Como o senhor vê o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. A OAB fará algum tipo de reparo?

Leonardo Campos – Sim, inclusive a nossa posição é pública e já foi exarada para o Congresso Nacional por meio de um parecer de uma comissão instituída pelo Conselho Federal, dos maiores criminalistas brasileiros que analisaram. Tudo aquilo que venha para contribuir com o processo penal é bem visto pela Ordem. Como por exemplo, a criminalização do caixa 2. 

Tudo aquilo que venha cercear o direito à defesa para a Ordem está fora de cogitação, como por exemplo, qualquer tipo de restrição ao habeas corpus. O habeas corpus é um instituto de liberdade, um instituto do povo brasileiro, e a Ordem não aceita qualquer possibilidade de restringi-lo. A criminalização, a violação às nossas prerrogativas também são uma bandeira da Ordem. E ela tem trabalhado isso muito firme no Congresso.

MidiaNews – E o cumprimento da pena após condenação em segunda instância?

Leonardo Campos – Somos contrários. A oposição histórica da Ordem que deriva de um único fundamento: é preceito constitucional. E a Ordem, enquanto voz constitucional do cidadão e guardiã dessa própria Constituição, não pode ter outra interpretação, senão aquela que o constituinte quis dizer: só será considerado culpado aquele condenado por sentença penal condenatória transitada em julgado. O termo transitado em julgado não permite outra interpretação senão após esgotados todos os recursos. Fora isso, é interpretar a Constituição de forma caolha, míope e distorcida. 

MidiaNews – O presidente Jair Bolsonaro (PSL) sempre foi contra o Exame da Ordem. Ele chegou a apresentar um projeto propondo seu fim em 2007. Nessa legislatura, o deputado federal José Medeiros (Pode) propôs um novo projeto com o mesmo teor. Como o senhor analisa essa mensagem?

Leonardo Campos – Obviamente, o deputado está batendo continência para o chefe. Encampou um projeto que caminha na contramão do que a sociedade espera. A sociedade espera hoje, e nós precisamos de legisladores que estejam antenados com esse anseio, de uma proteção mínima. O Exame da Ordem, conforme já reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal, é uma garantia de proteção social de que a sociedade precisa ter a sua disposição um profissional minimamente qualificado. 

Hoje os parlamentares deveriam estar imbuídos de trabalhar a criação de exames nos outros conselhos. E não acabar com aquilo que, diante da péssima qualidade do ensino jurídico, tem dado uma proteção para a sociedade. Ou seja, uma aberração, para ser mais claro. 

MidiaNews – Recentemente, Bolsonaro deu uma declaração polêmica sobre a morte do pai do presidente da OAB Nacional, Felipe Santa Cruz, e desencadeou uma forte reação. Também concorda que houve excesso do presidente?

Leonardo Campos – O presidente foi baixo e sórdido. Foi uma declaração sórdida. Uma declaração que demonstra total despreparo do cidadão Jair Bolsonaro para exercer o cargo de maior mandatário do nosso País, que a presidência da República exige uma postura de chefe do Governo e chefe de Estado. 

Ele não só atacou a pessoa do Fernando Santa Cruz, pai do presidente nacional, como a Ordem dos Advogados do Brasil, que tem um trabalho na Comissão da Verdade para resgatar a identidade daqueles que desapareceram em um período negro da nossa história.

Não somente atacou o Fernando Santa Cruz, atacou a instituição OAB, como também atacou a família de todos que foram vítimas da ditadura, de todos que foram torturados, que desapareceram e que morreram durante esse período ditatorial. O mínimo que se exige é uma solidariedade e um pedido de desculpa do Estado brasileiro para essas famílias que foram vítimas. E não se portar de forma rasteira, baixa e sórdida, desdenhando do falecimento do ente querido, que sequer a família teve oportunidade de enterrar e saber o paradeiro dele.

Obviamente que os documentos revelados a posteriori, tanto pela Aeronáutica, quanto pelo atestado de óbito da Comissão da Verdade, confrontam aquilo que o presidente disse. De modo que eu só posso crer que o presidente, além de demostrar ausência de qualquer sentimento... Um chefe de governo precisa ter acima de tudo, serenidade, equilíbrio e sensibilidade.

MidiaNews – Como o senhor avalia as críticas que o presidente faz à OAB? Há um sentimento dele em relação a Ordem de que ela se posiciona mais à esquerda politicamente?

Leonardo Campos – Eu não sei o pensamento dele, pois só ele pode responder. O que eu posso afirmar é que não é de hoje os embates que nós temos com a personalidade Jair Bolsonaro. Desde quando ele era deputado, ele se manifestava a favor de acabar com exame de Ordem, ele foi favorável e enalteceu a figura de [Carlos Alberto] Brilhante Ustra, no voto do impeachment da presidente Dilma Rousseff. A OAB pediu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

O Conselho Federal da OAB é composto pelos 27 estados. E nele nós temos advogados que não têm vinculação partidária, como por exemplo é o meu caso, mas temos outros que têm, mas é um colegiado que tem como o partido o Brasil e a ideologia, a Constituição. 

Tanto é que, no governo do PT, nós pedimos o levantamento do sigilo de todas as delações premiadas, inclusive do [ex-senador do Mato Grosso do Sul] Delcídio do Amaral, o afastamento do "todo poderoso" da República, senhor Eduardo Cunha [à época presidente da Câmara]. Nós pedimos o impeachment da presidente Dilma Rousseff, pedimos o levantamento da delação premiada de [senador por Minas Gerais] Aécio Neves. Nós pedimos do mensalão do PT, todas as providências, ou seja, a Ordem não tem partido, o partido dela é o Brasil. Ela é pluripartidária quando cobra o cumprimento da Constituição. 

Na sequência pedimos o impeachment do presidente Michel Temer (MDB), e, por outro lado, reconhecemos a legitimidade da eleição do presidente Jair Bolsonaro, que foi eleito pela maioria esmagadora das urnas.

Viver na democracia é saber viver com ideias diferentes no mesmo ambiente. O presidente Jair Bolsonaro deixou a carreira de militar, mas o militarismo não deixou o presidente Jair Bolsonaro. E ele na República não dá ordem, a Republica não é feita de ordem. Ele pode muito, mas não pode tudo. Aqui não se está diante do estado de direito a bater continência para medidas inconstitucionais.

A Ordem é a grande instituição que congrega a sociedade civil organizada e se levanta contra determinadas ações inconstitucionais do presidente da república, e medidas que beiram o absolutismo. E a Ordem falará sempre, não interessa o custo político disso. Nós não flertamos com o campo político, nós flertamos com campo constitucional.


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