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/ CASO RODRIGO

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13.03.2020 | 11h01
"Ele sempre apresentou descontrole emocional com água", afirma tenente
Ledur é acusada de provocar a morte de aluno durante treinamento do curso de formação de bombeiros

Victor Ostetti
A tenente Izadora Ledur que prestou depoimento
THAIZA ASSUNÇÃO E JAD LARANJEIRA
DA REDAÇÃO

A tenente do Corpo de Bombeiros Izadora Ledur prestou depoimento, na tarde desta quinta-feira (12), na 11ª Vara da Justiça Militar, no Fórum de Cuiabá.

Ela é acusada de causar a morte do aluno Rodrigo Patrício Lima Claro, de 21 anos, durante um treinamento da corporação em novembro de 2016. 

Ledur negou ter dado "caldos" [afogamento forçado] em Rodrigo e afirmou que o aluno tinha um certo descontrole emocional com água. Essa foi a primeira vez que a tenente depôs sobre o caso. A audiência foi conduzida pelo juiz Marcos Faleiros. 

“Ele sempre apresentou esse descontrole emocional. Ocorre que vai passando o tempo, perto de formar e não podemos mais ficar ensinando. Eu precisava que ele demonstrasse mais força”, afirmou Ledur. 

Com o depoimento da tenente, o processo entra na fase final.  

Salvamento aquático (atualizada às 14h40)

Ledur afirmou que a aula de salvamento aquático é uma disciplina que exige mais do ser humano, por isso ela fica para o final.

“Tendo em vista que o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso não tem material, nós usamos a matriz curricular do Paraná, que diz que tem que ser o mais próximo da realidade. O grupo de alunos que eu recebi era preparado, que se preparou para aquele momento. É inadmissível eu entregar um soldado que não vai querer entrar na água, que não consegue salvar a vítima”, afirmou.

A tenente ressaltou que na aula de salvamento aquático o Corpo de Bombeiros não ensina a nadar.

"A gente não tem obrigação de ensinar nadar. Isso é feito lá no início e nem lá eles ensinam. Lá é treinar, simular exercícios o mais próximo da realidade. No dia em que estivemos na lagoa, eles tiveram uma atividade pela manhã e à tarde uma instrução de salvamento aquático", disse.

Divulgação

rodrigo claro

O aluno Rodrigo Claro (no detalhe) que morreu após treinamento na Lagoa Trevisan

“Quando chegamos na lagoa, por volta das 14h30, os alunos já estavam lá e aí começamos a ritualística do treino. Fizemos uma corrida em torno da lagoa em aproximadamente 20 minutos, só pra fim de aquecimento. Após essa corrida os alunos são colocados próximo à lagoa e é explicado o exercício na água”, acrescentou.

Tenente nega 'caldos' em aluno (atualizada às 14h50)

Ledur afirmou que teve apenas dois contatos com Rodrigo Claro na Lagoa Trevisan. Ela negou que tenha dado "caldos" (afogamento forçado) no aluno.

“Como foi esse contato?  Falou-se muito em caldos, que são as sessões de afogamentos. O caldo é um exercício que está na matriz para que aluno passe por uma reação próxima à realidade, quando a vítima se agarrar no bombeiro. Naquele dia eu pratiquei o nado resistido, que também pode ser considerado como caldo”, disse.

"Eu segurava eles pela camiseta. Quando estavam com a boia eu segurava a boia, nadava em sentido contrário para tracionar. Foi isso que fiz naquele dia. Esse nado resistido não foi algo inventado por mim. Já existe há muito tempo e era um procedimento que outros militares também adotavam”, acrescentou.

Tenente diz que aluno era “descontrolado” (atualizada às 15h)

Ledur afirmou que Rodrigo Claro tinha um certo descontrole emocional com a água e apresentou esse descontrole ao longo do curso por diversas vezes.

O juiz Marcos Faleiros a questionou se é comum aprovar militar com síndrome do pânico.

“O psicotécnico afere se ele pode ter a condição como soldado. Questão de te pavor ou fobia não é aferido”, respondeu.

“Mas quem tem fobia não coloca o rosto na água. Não era o caso do Claro. Às vezes faltando dois metros ele desistia. Ele era alguém que tinha um descontrole. Em uma outra aula aparece no vídeo descontrolado sozinho. Essas características eram trabalhadas na instrução. A gente fornecia todas as condições para ajudá-lo a acalmar”.

“Ocorre que vai passando o tempo, perto de formar e não podemos mais ficar ensinando. Ele sempre apresentou esse descontrole emocional. Eu precisava que ele

Ele era alguém que tinha um descontrole. Em uma outra aula aparece no vídeo descontrolado sozinho

demonstrasse mais força. Que ele tomasse uma atitude que não fosse de parar, que agarrasse em mim”.

Ledur nega castigo (atualizada às 15h15). 

O juiz questiona o motivo do nado resistido. 

“Não era uma conduta direcionada ao Rodrigo. Não houve nenhum castigo pessoal. Inclusive fiz essa técnica com outros alunos”, afirmou Ledur.

O juiz questiona se Ledur percebeu Rodrigo passando mal. "Não senhor", disse.

“Quando a gente passa por um processo de afogamento, o primeiro sinal é tossir e ele não tossiu. Ele não afogou e não apresentou um mínimo sintoma, o prontuário da UPA [Unidade de Pronto-Atendimento] diz isso”, afirmou.

Tenente mostra fotos e diz que não viu Rodrigo passar mal (atualizada às 15h25

Isadora mostra fotos das cenas do treino ao juiz. São fotos de um fotógrafo contratado para registrar a aula. As imagens, segundo ela, comprovam que, no fim do treino, ela ficou na água.

As fotos também, segundo ela, mostram Claro em forma. Isso para provar que ela não ignorou o mal estar dele e sim não sabia que ele estava mal.

A tenente diz que, ao sair do treino, o aluno virou as costas para ela, e que ela foi atrás, para questioná-lo. 

“Ele disse que estava ruim e quis ir embora. Falei que se ele estava ruim, a gente o levava no hospital. Mas ele só dizia que queria ir para a coordenação. Subiu na moto e foi embora”, afirmou.

Ledur disse que avisou sobre a conduta do aluno, de deixar o treino, a autoridades da corporação, por mensagem de aplicativo.

Victor Ostetti/MidiaNews

Jane Claro

Jane Claro, mãe de Rodrigo Claro não segurou as lágrimas durante a audiência

“Depois que soubemos do que ocorreu imediatamente fomos para a policlínica. Lá o cabo Joilson me disse que ele foi avaliado como verde. Que não tinha urgência de ser atendido, mas que ele tinha acabado de ter uma piora após ter tomado uma medicação. Teve convulsão. Houve a necessidade pra ele ser transferido para o Jardim Cuiabá”, disse.

“A mãe dele veio bastante agressiva para cima de mim é só não me agrediu porque foi impedida. Começou a imputar a mim a responsabilidade. E aí eu fui embora para minha casa”, afirmou. 

“Ser bombeiro é colocar nossa vida em risco”, diz tenente (atualizada às 15h50)

Ledur finalizou seu depoimento afirmando que "ser bombeiro é colocar nossa vida em risco".

“O serviço real de salvamente aquático é muito desgastante. O que eu cobrava não era nada de excepcional, era o mínimo, realizar um salvamento completo e nenhum aluno nadava mais que o outro, nem um centímetro a mais”, afirmou. 

A audiência foi encerrada às 16h20. 


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