AMANDA PAIM
GILSON NASSER
DA REDAÇÃO
Apontada como o 'elo' do Comando Vermelho fora da cadeia, a missionária espiritual Rhavenna Barcelos de Almeida não tinha relação apenas com os faccionados com quem namorou. Denúncia feita pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), obtida com exclusividade pelo MídiaJur, aponta que ela dialogava com outros líderes do primeiro escalão da facção criminosa.
Um deles era Paulo Witer Farias Paelo, o W.T., apontado como testoureiro da facção. O outro é Sandro da Silva Rabello, o "Sandro Louco", apontado na denúncia como o "nº 1 do Estado de MT".
Com W.T., a Polícia Civil mostrou que eles tinham relação próxima de amizade e a missionária também atendia pedidos dele fora da prisão. O tesoureiro do CV está preso desde abril de 2024 por 'lavar' dinheiro da facção através de um time de futebol amador.
"Identificou-se, ainda, que Rhavenna possui contato com Paulo Witer Farias Paelo, vulgo 'WT', conhecido como tesoureiro do Comando Vermelho, preso na Operação Apito Final, o que fortalece seu vínculo com outros faccionados que compõem as lideranças mato-grossense", diz a denúncia.
A representação do Gaeco ao Judiciário mostra trechos de diálogos entre a missionária e a liderança do Comando Vermelho. Em um deles, a dupla troca uma conversa em tom descontraído.
"No diálogo do dia 22/08/2025, do interior do presídio, ele encaminha diversas figurinhas suas para Rhavenna e ela diz: kkk tá cheio de figurinha sua, já salvei todas kkkk” e ele conclui “Nossa o povo faz toda hora”, cita a denúncia.
Ela também atendia a pedidos de W.T., mediante pagamento. Num dos diálogos, ele chegar a pedir o PIX da missionária para que ela levasse algumas compras em dia de atendimento religioso na cadeia.
"Já no dia 01/10/2025 Rhavenna pergunta se Paulo precisa de algo que ela possa levar para dentro do presídio, o que mostra sua disponibilidade e assistência aos pedidos de um dos líderes da organização criminosa", diz outro trecho da denúncia.
PROXIMIDADE COM "SANDRO LOUCO"
Em relação a "Sandro Louco", a denúncia revela que a missionária tem um relacionamento de amizade desde 2022. Inclusive, frequentou festas familiares promovidas pela esposa do chefão da facção, Thaisa Souza de Almeida Silva Rabello.
"(...) no diálogo realizado em 06/06/2022, com o genitor do seu filho, onde Rhavenna pede para ele cortar o cabelo da criança, pois vai levá-la ao aniversário do filho do 'Sandro Louco' (01 do Comando Vermelho de Mato Grosso) e Thaisa - id. 229028914 - Pág. 101", relata a denúncia.
Diálogos entre Rhavenna e sua mãe, Orminda Barcelos de Almeida, mostram que em 2026 a família ainda mantém relação com o "01 da facção". "Em outro diálogo, realizado no dia 27/02/2026, Rhavenna fala com a mãe pedindo para chamar o pai para visitarem o 'Sandro Louco'", expõe a denúncia.
DENÚNCIA
Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida foi denunciada com outros quatro familiares e um de seus namorados pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Os denunciados são a mãe dela, Orminda Carlos de Barcelos Almeida; as irmãs Anatany Nina de Barcelos Souza Alves e Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi; e o primo Rhuan Barcelos da Conceição. Já o namorado é Renildo Silva Rios, vulgo "Veio", "Velhote" e "Chapa", um dos fundadores e 'conselheiro final' da facção.
O pai de Rhavenna, Nivaldo de Almeida, não foi denunciado porque morreu de câncer há poucos dias, em 5 de setembro de 2026.
O caso ganhou repercussão ainda maior após a família ser exposta no Fantástico, da TV Globo, neste domingo (13). A denúncia do MP é baseada em relatório da Polícia Civil e detalha como o grupo usava a "Equipe de Evangelismo Resgatando Vidas" para entrar em presídios.
COMO FUNCIONAVA
De acordo com a denúncia, a família usava a equipe de evangelismo para facilitar o fluxo de informações entre presos e faccionados foragidos. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil identificou uma rotina de luxo incompatível com a atividade religiosa.
"No Relatório nº 2025.13.69805 (ID nº 201731160, págs. 1 a 9), a polícia civil concluiu que o envolvimento entre a família e o CV-MT era verossímil. Isto porque, conforme as evidências colhidas, Rhavenna, que alegava ser praticante religiosa, fazia exposições em suas redes sociais (Instagram - principalmente) de uma vida com exacerbado luxo e frequentes visitas às favelas do Rio de Janeiro, sempre na presença de familiares de faccionados", diz trecho da denúncia.
O MP também detalhou quando cada um movimentou valores do esquema.
"entre 27/04/2024 a 16/07/2026, os denunciadas Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida, Orminda Carlos de Barcelos Almeida e Renildo Silva Rios; b) entre 20/09/2025 a 19/03/2026 o denunciado Rhuan Barcelos da Conceição; c) entre 24/02/2025 a 15/04/2026 a denunciada Anatany Nina de Barcelos Souza Alves; e d) entre 27/07/2024 a 06/05/2026 a denunciada Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi movimentaram/ocultaram valores e bens provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal".
Na denúncia, o Ministério Público pede o recebimento da ação, a citação dos denunciados, a condenação ao final, a oitiva de testemunhas e o compartilhamento de provas com outros processos do Gaeco.
O MP também informa que não vai oferecer Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) aos seis denunciados por entender que, diante da gravidade, o acordo não seria suficiente para reprovar e prevenir os crimes.
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