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OPINIÃO Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012, 13:48 - A | A

19 de Setembro de 2012, 13h:48 - A | A

OPINIÃO / EDUARDO MAHON

Comissão da (meia) verdade

STF apura o que convém

EDUARDO MAHON



O nome já foi infeliz. Pretender a verdade é uma das piores presunções. No Brasil, como sabemos, as coisas são feitas pela metade. Primeiro, porque não haverá processo penal contra criminoso algum da ditadura militar; segundo, porque nenhuma verdade será apurada que não saibamos. Tortura, homicídio, censura e expurgo. Não há muito mais a explorar. No entanto, a comissão da verdade não vai se debruçar sobre eventuais crimes da resistência à ditadura, como se qualquer ato (as mesmas torturas e homicídios) fosse legitimado frente ao militarismo ditador.

Não se presta para apurar a verdade. Serve a comissão para verificar e confirmar versões. E não me ponho aqui a comungar com o milico discurso, retrógrado e divergente. O que houve foi uma ditadura, com todos os barbarismos de uma ditadura. Nada mais, nada menos. Houve horror, covardia, chacina, de oficiais militares informados que se escondiam no poder das fardas. O militarismo retardou o processo democrático nacional em décadas, num mar de ignorâncias e equívocos. Não foram mais honestos do que os atuais políticos. Ninguém está imune à corrupção e cresceram com os militares safados, empresários safados. A ditadura fez a escola da comissão de empreiteiras e financiamentos fraudulentos de campanha.

E houve resistência legítima, honesta, ética, digna. No entanto, houve também saques, mortes, extermínios, atentados, terrorismo e torturas. Daí que será sempre uma meia verdade a ser apurada. Com efeitos históricos e jurídicos pela metade. Gordas pensões são pagas mediante lobby de políticos conhecidos, numa conhecida indústria de mediação e propina. De outro lado, nada se esclareceu, nem será esclarecido quanto aos atos de terror, atentado, dano, roubo e morte por parte das células de combate à ditadura. Portanto, não é a “verdade”, é uma meia verdade, uma versão dos vencedores que são os que atualmente governam com base na fama que fizeram na ruína militar brasileira.

As forças armadas foram tão incompetentes na comunicação social e na política que legaram ao país uma turma de hipócritas que fizeram bem pior na máquina pública e hoje são julgados por crimes de corrupção que tanto condenavam no regime de exceção. A ditadura é tão vil que furta a maturidade democrática da população, fazendo-a iludida com salvacionistas, demagogos e outros ditadores travestidos. Misturaram-se no mesmo balaio todas as oposições: a de gente honesta e a de criminosos. A sociedade acreditou que todos eram bons. E não são.

A historiografia stalinista que foi implantada na “comissão da verdade” que revisar apenas uma parte da trajetória política brasileira. Não que a resistência tenha cometido mais graves delitos do que os próprios militares, de forma alguma. Mas ignorar os crimes comuns dos que estavam engajados em fazer frente à ditadura militar, é esconder a poeira embaixo dos tapetes e emoldurar na parede apenas as vítimas de um lado, quando há policiais, militares e muita gente comum que também foi sequestrada, assaltada, tortura e morta.

Condena-se para sempre o bandido e absolve-se eternamente o mocinho. É uma espécie de “Urbi et Orbi” governamental. Resgatar a imagem de alguns opositores ao regime militar, justamente quando estão sendo condenados juridicamente pelo Supremo Tribunal Federal, é uma espécie de absolvição pública. Querem comprar indulgências plenárias e públicas, com base numa comissão de notáveis indicados pelos beneficiários de polpudas pensões vitalícias. Uma nação ressentida pela ditatura e enganada por criminosos que corrompem o sistema político precisa da verdade verdadeira. Dizer menos que isso é uma meia verdade que, para ser franco, não passa de uma mentira.

Eduardo Mahon é advogado.

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